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Monday, 10 May 2010

cagada


Quando eu era criança, odiava quando, brincando no mar, pisava e ficava com o pé todo sujo de piche. Era horrível (um parto!) tirá-lo da pele. Viscoso, colava que nem chiclete! - muito pior... Mal sabia eu o que era, de verdade, e que estava ali, no litoral, oriundo de algum navio, ou vazamento como esse de agora.

Há 18 dias, dezenas de milhares de litros de petróleo jorram sem parar das profundezas do mar do Golfo do México, nos Estados Unidos, em direção à superfície. Um desastre ecológico lastimável, mas, principalmente, um alerta político ao presidente Barack Obama.

Dizem que o acidente na plataforma Deepwater Horizon, administrada pela companhia British Petroleum (BP), ocorreu devido a uma falha técnica associada a erro humano: a tripulação teria demorado a acionar os equipamentos de segurança. E ainda questionam as autoridades locais por não terem tomado as devidas providências com a urgência necessária.

A Louisiana sofreu enorme crise em 2005, quando foi atingida pelo furacão Katrina. Na época, o então presidente George W. Bush foi severamente criticado por seu descaso. Agora, Obama está na mira da opinião pública, que vai avaliar sua conduta diante deste novo incidente. Pressionado, fez uma visita oficial à região, que ainda se recupera dos danos do passado.

Alguns estados norte-americanos como Alabama, Flórida, Louisiana e Mississippi já decretaram estado de emergência. Os números oficiais apontam para o vazamento de cinco 5 mil barris diários, mas alguns especialistas acreditam que esse número possa chegar a 20 mil. Façam as contas: tendo cada barril 159 litros, isso equivale a mais de três milhões de litros todos os dias! MUITA coisa.

O petróleo, por sua densidade, flutua na água salgada, e, com base em imagens de satélite e índices de medição, especialistas do setor podem avaliar a extensão do problema. Infelizmente, não se mostram otimistas, pois a área já triplicou desde quando teve início esse escoamento. 16 milhões de litros de petróleo já estão boiando sob os mares estadounideneses.

O mau tempo atrapalha os trabalhos no local atingido. As marés estão empurrando as barreiras absorventes colocadas para conter o avanço da mancha para a costa. E, apesar dos 300 navios, 6,5 mil quilômetros de cordões de isolamento, e seis mil pessoas engajadas na tentativa de contenção da mancha negra, o sucesso não é total.

A empresa britânica reconhece que encontra dificuldades tecnológicas para conter o vazamento. Segundo ela, a válvula deveria ter se fechado automaticamente quando a plataforma explodiu, matando 11 funcionários e afundando em chamas. Mas isso não ocorreu. Segue a corrida contra o relógio para conter a força do ouro negro que está sendo desperdiçado, poluindo o meio-ambiente.

A última tentativa de solucionar o problema não deu certo. A gigantesca cúpula de aço foi retirada do solo marinho devido à descoberta de cristais de gelo em seu interior, formados devido às baixas temperaturas a mais de 1.500 metros de profundidade, o que obstruiu a abertura por onde seria extraído o óleo diretamente para um navio. Agora estão pensando em alternativas para reutilizar essa mesma estrutura, desentupindo com metanol esse canal.

Seus gastos em esforços para travar o derrame e em indenizações aos Estados da costa sul dos EUA já chegam a 350 milhões. E esse valor é inversamente proporcional ao de suas ações, que já desvalorizaram 17%. Foi decidido que a empresa proprietária da plataforma terá de arcar sozinha com os custos dos danos causados e pagar compensações pessoais, materiais e por perdas comerciais a todos os cidadãos da zona afetada pela maré negra.

Para tentar driblar suas responsabilidades, a BP ofereceu uma recompensa a quem se disponibilizasse a ajudar na limpeza: 1.500 dólares diários, em troca da renúncia dos pescadores a tomarem qualquer posição legal contra a empresa. Mas autoridades do Alabama denunciaram a proposta, e o texto do contrato foi alterado. Por não poderem iniciar a temporada da pesca apanha de camarão - que vai de Maio a Setembro, eles seriam os principais candidatos.

Com o desastre, importantes rotas de transporte marítimo, áreas pesqueiras, refúgios nacionais de fauna silvestre e praias populares estão no caminho da sopa de petróleo. Uma indústria pesqueira que movimentava 1,8 bilhão de dólares (e perde apenas para a do Alasca) está parada. As autoridades dos EUA suspenderam toda a pesca nas águas federais afetadas pela mancha.

A região litorânea do Golfo do México abriga centenas de espécies de fauna silvestre, incluindo peixes-bois, tartarugas marinhas, golfinhos, baleias, lontras, pelicanos e outras aves. Ali é também uma das áreas pesqueiras mais férteis do mundo, repleta de camarões, ostras, mexilhões, caranguejos e peixes.

O tamanho do estrago até agora: uma área quatro vezes maior que o tamanho da cidade do Rio de Janeiro, e danos ambientais incalculáveis às mais quatro mil espécies costeiras da região, que dependem do ecossistema do estuário e da foz do rio Mississipi.

NÃO QUER CALAR:

Algo eficaz precisa ser feito o quanto antes. Em pouco tempo, esse poderá ser considerado o MAIOR desastre ambiental dos Estados Unidos, ultrapassando o do petroleiro Exxon Valdez, no Alasca, há 20 anos. Foram despejados naquelas águas frias cerca de 40 milhões de litros de petróleo e até hoje ainda se sentem os prejuízos ao meio-ambiente.


Documentos iniciais indicam que a petrolífera britânica não tinha preparo suficiente para o caso de uma explosão do porte da que ocorreu. Mas ACONTECEU. E agora? Antes que dê mais merd*, o governo suspendeu a perfuração de novos poços na costa do país até que sejam concluídas investigações sobre o vazamento.

Não seriam justamente eles os responsáveis por isso, uma vez que concederam à BP a possibilidade de extração em seu solo, mesmo não tendo esta condições para tanto? O quanto se difere um erro desses, nessas proporções, a tantos outros cometidos por diferentes países, e foram tão condenados pelos EUA?

Pensemos e lembremos disso. Dessa vez, o buraco é mais em cima...

Tuesday, 8 September 2009

pela boca


Quando criança, quase morri com uma espinha de peixe cravada em minha garganta. Mas não foi por isso que detestei o gosto forte e diferente dos pescados até a pré-adolescência. É normal que os mais novos estranhem tal aroma até aprimorarem seu paladar com o passar dos anos. Engraçado que lagosta, lula, siri e polvo sempre gostei! Très chic. Já mexilhões e ostras, repulsava. Não me apetecem seus aspectos gosmentos, viscosos, pois aprecio o que é crocante ou borrachudo. E hoje, até o 'azedinho' de alguns peixes me agrada, bem como a dificuldade de comer sua carne por entre cartilagens finas e perigosas.

Um dia serviram uma espécie enorme, feita na grelha, inteira. Fiquei chocada. Por antes só tê-lo visto enlatado, não supunha que o atum era daquele tamanho! Acho que o comparava às sardinhas pela forma que são vendidos e proximidade nas prateleiras dos supermercados, pela presença de ambos nas pizzas de minha mãe. Quem não frequenta feiras não os identifica facilmente por entre escamas. E o cheiro desagrada a muitos (embrulha até!). Já golfei ao limpar moluscos e jurei dali por diante sempre recorrer aos gentis cavalheiros que nos entregam as postas prontas. E olha que eu não sou nojenta... a tinta é que assusta.

Admiro a liberdade dos seres aquáticos na imensidão das águas. As mães-d'água dançam lentamente e nem parecem ser nocivas. Todos tem os seus recursos naturais que os diferenciam. Já estive em meio a um cardume no mar do nordeste e não me agradou a sensação dos peixes se debatendo em mim, e eu sem conseguir discernir os vultos na mancha escura em constante movimento. Tive receio de algo me morder. Dizem que quando sentimos cheiro de "melancia" na praia é porque tem tubarão por perto. Será? Ou é mais uma história dessas de pescador, como o canto da sereia? - este é um mito que me fascina (fantasia que mexe comigo, que quero ser uma). O do boto também me intriga. Desculpa de tantas moças no norte do país, ele é como o pai das estrelinhas nas atuais favelas.

Sou filha de Iemanjá. Não foram poucas as vezes que ela me chamou para perto dela. A diferença dos mares e a importância de um maior respeito a sua grandeza aprendi agora, ao me mudar para uma cidade litorânea. Quando morava no sul, não tinha receio. Muita coisa mudou... também não enjoava ao andar de barco, mesmo passando dias pra lá e pra cá na Bahia, ou onde quer que fosse. Por que agora é diferente? Esse sentimento é novo, mas intenso. Veio com algumas quedas significativas, junto à percepção do desconhecido, de uma força maior que sempre vai estar em vantagem. Digo isso sem intenção nenhuma de me afastar de sua beleza, evitando seus banhos energizantes, o barulho e o balanço de suas ondas e a brisa no rosto mostrando que o tempo esta a passar, levando e trazendo a gente por entre pensamentos.

Fui companheira de meu pai em inúmeras pescarias. Já vi a linha ir longe e a rede ser passada em açudes pra lá do sul do mundo. Lembro-me perfeitamente do barulhinho das pedras dentro das embalagens de óleo automotor a se mexer quando mordida a isca. Um estalo, e lá ia o velho correndo ver o resultado daquelas investidas. Passávamos manhãs e tardes dedicados à busca do alimento, ao silêncio, ao ócio, à tranquilidade dos pagos, ao passatempo dos homens - 'indiadas' típicas dos Irions. Nessa época conheci as tartarugas e ensaiei o sonho de uma estima doméstica. E não esqueço os mussuns, que temia dentro e fora d'água, e que amava os lambaris, pois conseguia pegá-los em minhas mãos pequenas facilmente para comer.

Salivo só de pensar em alguns pratos. Do clássico molho apimentado baiano na moqueca de cação ao leite de côco ou do pirão encorpado fervilhante, passando pelos agulhinhas fritos que quebram deliciosamente na boca, até as recém-descobertas peças (que ainda não aprendi a apanhar corretamente com aqueles dois pauzinhos difíceis de manusear...) cruas de salmão, enroladinhas com arroz em algas, enfileiradas, ou levemente coradas, banhadas em molhos de soja doce ou salgado, ardentes com raiz forte. O universo gastronômico dos frutos do mar é um espetáculo à parte - riquíssimo, saudável e apetitoso.

Minha coragem em me aventurar por cardápios light e caros, mas perigosos, tratando-se de minha paixão maior - o camarão, já me levou quatro vezes à emergência de hospitais por intoxicação alimentar (ou infecção intestinal? - não lembro ao certo. Devem ter sido ambas, alternadas). Esse requinte pode ser fatal para organismos alérgicos e estômagos fracos, como o meu. Lamento que aconteça, mas é o risco que assumo ao me permitir esse prazer inenarrável. Melhor que Buscopam na veia, só isso mesmo! Além de sempre optar por peixes quando como fora, uma vez por mês, ao menos, caio com os amigos na tentação da comida japonesa.

O Rio de Janeiro, bem mais que o Rio Grande, mas menos que o nordeste e Santa Catarina, oportuniza esse hábito saudável que é comer peixe e frutos do mar. Essa onda oriental pegou por aqui e a cada esquina encontramos opções fast e outras mais elaboradas para se saborear o que as águas nos oferecem. Interessante perceber, pela campanha do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), que se come ainda pouco pescado no Brasil, comparando-se com outros países. Em território tão bem cercado por oceanos, e terras à oeste docemente alagadas, isso é uma incoerência. Dou um desconto aos conterrâneos gaúchos, que culturalmente preferem carnes mais encorpadas, mas surpreende-me tal comportamento no restante do país.

Espero que a Semana do Peixe, que já é realizada há seis anos, atinja seu objetivo de aumentar esse consumo por aqui. Bacana essa iniciativa que, além de movimentar o mercado fomentando promoções e festivais na oferta, busca informar a população. Folhetos explicativos sobre os benefícios desse alimento, que indicam como fazer a escolha certa do produto, e também sugerem formas de prepará-lo, estão sendo distribuídos gratuitamente. Espera-se que até 2011 cada brasileiro chegue a comer, em média, nove quilos ao ano. O ideal seria os 12 recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), claro. Se depender de mim, chegaremos lá!

Que a gente caia então na rede, ou seja fisgado pela boca, tanto faz - não só agora, mas SEMPRE. O importante é que se rendam todos (estrelas do mar, moréias, ouriços, golfinhos, baleias, cavalos marinhos e tatuís gigantes - inclusive!).
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passatempo

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  • conheça novas culturas
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c'est fini!