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Sunday, 27 June 2010

poses para a imortalidade


World Press Photo 2010

A exemplo do ano passado, já sabia que iria me emocionar por entre aquelas imagens impactantes que via em minha frente. Interessante, porém, é o fato de a excentricidade chamar mais a minha atenção do que as clássicas fotos relatando conflitos políticos, por exemplo.

Não desmereço EM ABSOLUTO este apreciável trabalho, mas me atenho a sair do senso comum, daquilo que por mais que não se veja, imagina-se. Eu, pelo menos, tenho consciência do sofrimento de mães de “veteranos” de guerra, inválidos com 20 anos, ou protestos de um povo oprimido contra seus governos... por mais que elas “somente” ilustrem o que ouvimos falar, ou, ainda assim, choquem, mostrem o que nem poderíamos supor dessas realidades.

Diante dessas fotos, nesta exposição maravilhosa, prefiro conhecer o que não sei, aquilo que nunca vi, ao que pela primeira vez estou sendo apresentada. Na edição anterior foi assim. Intrigou-me a sequência de retratos feita pelo italiano Carlo Gianferro de famílias romenas ostentando cômodos cenográficos em suas casas – povo esse que há pouco tempo era comunista, e descende de ciganos nômades. Duas contradições a essa tradição impensada até então!

Esse ano sigo na mesma linha do surreal relacionada a status (e de minha predileção pelo olhar italiano, não posso negar). A bola da vez foi Francesco Giusti com suas capturas sobre um costume e lazer do povo no Congo, a Société des Ambianceurs et des Personnes Élégantes – SAPE. Acreditem: num país que vive em meio à miséria, existe um grupo de pessoas que gasta o que (NÃO) pode para se vestir bem e viver (literalmente) uma fantasia, inspirado nos antepassados de sua aristocracia que voltaram de Paris nos anos 20 e 30.

Ainda nesse clima de ilusão, mas numa perspectiva mais ‘nobre’, para desafiar percepções e preconceitos, dois artistas denominados Güler Lacht, propõem a pessoas que elas se vistam com roupas do Oriente Médio e assim sejam fotografadas em diferentes contextos. Essa interação ou performance (chame como quiser), que escolhi para ilustrar o post por sua boa intenção, aconteceu num evento artístico na cidade de Stedum, no norte da Holanda, e foi registrada pelo jovem Kees van de Veen.

Engraçado isso de esses instantes imortalizados mexerem tanto com o nosso imaginário. Sempre quando alguém vai nos clicar, logo arrumamos o cabelo, olhamos no espelho, passamos batom, preocupamo-nos em quão bem ficaremos naquela representação do momento. Nesses dois casos citados, que a mim me marcaram, essa característica está aliada ao fotojornalismo em si. É a vaidade misturada à informação, interesse e social, público e privado. Muitas vezes essa sutileza é mais difícil de ver em meio ao que é notícia escancarada, ao trivial - e por isso, faz-se louvável.

* Achei válida a menção honrosa que a organização fez ao vídeo veiculado na internet da jovem Neda, que foi baleada e morreu vítima da repressão às manifestações contra a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, em junho do ano passado, no Irã. É o reconhecimento e a aliança dos novos meios, que juntos (in)formam.

Para conferir as fotos vencedoras, publicadas na imprensa ao redor do mundo, é só ir no site da
World Press Photo.

Tuesday, 25 August 2009

retratos da ostentação


Mil coisas acontecendo e, eu, infelizmente, acabo por perder ‘cada uma’... Uma dessas, que pelo dedo de minha amiga Grazi, acabei saindo ganhando (mesmo que nos 47 prorrogados do segundo tempo), foi a “World Press Photo”. Consegui conferir a exposição que reuniu 196 imagens premiadas em 2008, registradas por fotojornalistas do mundo inteiro.

A maioria das fotos trazia alguma denúncia em sua mensagem calada, mas ‘gritante’. Eram aqueles belos instantes imortalizados, cheios de sentido, intenção, cor – quando não eram simplesmente elegantes em sua dualidade preta e branca. Sua intensidade não ameniza o desespero, a doença, a crueldade, a tristeza e o mal presentes ali naqueles retângulos.

Fatos que marcaram um ano “qualquer” - nada mais representam aquelas fotos do que isso. Pela problemática maior, algumas dessas que foram tiradas há pouco, bem poderiam ser captadas amanhã, mas a maioria não. O que as diferencia de tantas outras, e que as faz únicas e importantes, é justamente a questão do tempo, e da presença. Seu criador estava lá, e é através de seu olhar que podemos ver o que já foi e não volta mais.

Incrível que acontecimentos tão poucos inspiradores possam ter rendido tão magnífico material. Cheguei a chorar por entre as galerias. É emocionante, assim o são. Reproduzem momentos, sentimentos, situações. Informam, alertam, comunicam ao mundo o que ali mostram – muito além, na verdade. Fotojornalismo é um soco no estômago, porque diferente das pedras no sapato, são impactantes, mas não efêmeros.

Uma seqüência entre tantas outras me chamou a atenção. Eram fotos posadas, coloridas, vivas. Trazem pessoas de semblante satisfatório em acomodações que mais parecem cenários de filmes, vitrinas de lojas, casa de bonecas. E, se bem entendi a legenda, são isso mesmo – como um adereço. Aqueles lugares servem para mostrar de maneira ornamental o poder aquisitivo do modelo ali em foco.

Para compreender claramente o que estou falando - e o que estou QUERENDO dizer, faz-se necessário um ‘briefing(zinho)’ básico, um breve embasamento histórico (na exposição existe uma pequena legenda em casa foto):

Essas pessoas retratadas são romenas de origem cigana. E duas curiosidades a respeito desses povos explicam muita coisa, dão sentido ao contexto das fotografias tiradas . 1. A Romênia é um país que até há pouco tempo era comunista e que a recém entrou para a União Européia, 2. os ciganos são originalmente nômades.

Sabendo disso, não fica difícil agora perceber o porquê da valorização do lar, de sua decoração, da futilidade de se montar uma cozinha, por exemplo, só como enfeite, para mostrar aos outros que hoje se tem (o que ontem não se podia ter). Os tempos são outros e os dentes de ouro dão espaço a faqueiros e conjuntos de porcelana que jamais serão usados.

Os retratos do italiano Carlo Gianferro, para a Postcart, ficaram em primeiro lugar na categoria ‘Histórias’ da premiação. Veja as outras fotos da exposição em: http://www.worldpressphoto.org/index.php?option=com_photogallery&task=blogsection&id=19&Itemid=223&bandwidth=low
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c'est fini!